segunda-feira, 19 de maio de 2014

POR QUE PLANTAR MILHO COMO SE FOSSE MAPIRA?

Vamos dar uma olhada nas duas imagens a seguir:




A primeira imagem é da mapira (Sorghum sp.) e a segunda do milho (Zea mays). Embora sejam plantas de espécies diferentes, sua semelhança morfológica pode estar contribuindo, há muito tempo, para uma espécie de subcultivo do milho em muitas regiões do interior africano. Vamos analisar com mais calma as imagens anteriores.

A primeira imagem, da mapira, parece mostrar cinco plantas carregadas de sementes, não? Só que as coisas não são bem assim. Na verdade, trata-se de uma única planta, originada de uma única semente, que rebroutou após a primeira colheita e o corte da parte aérea da planta original. Pode até não parecer, mas os cinco pendões que vemos carregados compartilham o mesmo sistema radicular. E não é só isso. Pela natureza dessa planta, o sistema radicular permanece vivo mesmo após alguns cortes da parte aérea da planta e até mesmo quando ocorre uma estiagem prolongada. A mapira pode ficar meses sem receber água e quando volta a recebê-la, o seu desenvolvimento é retomado.

Já o milho, uma planta de origem das terras altas da América do Sul, possui uma estratégia de sobrevivência bem diferente da mapira. O pé de milho mostrado na segunda imagem também foi obtido após o plantio de uma única semente, só que nesse caso, essa semente produziu apenas um único “pé de milho”. Nessas condições, a produção de espigas pode variar de duas a até quatro espigas num único pé. Após o amadurecimento da espiga, o pé de milho seca e morre.

O milho foi trazido para a África pelos antigos colonizadores europeus que o descobriram em terras americanas. Rapidamente o seu cultivo foi expandido por praticamente todo o continente e hoje em dia é um dos cereais mais cultivados em todo o planeta. No entanto, nas machambas camponesas é muito comum encontrarmos milho plantado como se fosse mapira. Como é isso? Os camponeses adotaram o hábito de colocar numa só cova até seis ou sete sementes de milho e uma das justificativas para isso “é que eles precisam produzir o máximo de espigas por cova semeada”. Contudo, o que se vê na maioria esmagadora das machambas são plantas subdesenvolvidas que produzem espigas pequenas e raramente bem carregadas de sementes. No entanto, esse hábito é tão forte na cultura atual que até mesmo no caso de nossos colaboradores é difícil convencê-los do erro dessa prática.

Ao plantarmos mais do que duas sementes de milho por cova, as plantas que nascerem irão competir pelo espaço disponível e o resultado será uma espécie de atrofiamento do sistema radicular o que acabará causando um subdesenvolvimento da própria planta e consequentemente, da colheita. Durante algum tempo nos perguntávamos o por que dessa prática e numa espécie de insight percebemos, ao contemplar um pé de mapira carregado após a rebrota, que talvez esse hábito tenha se originado ainda no tempo do início da colonização, quando nossos ancestrais receberam as primeiras sementes de milho e perceberam que as plantas eram muito parecidas com as da mapira, de origem africana e, portanto, cultivada no continente há milhares de anos. O fato é que plantar milho como se fosse mapira não irá produzir, nem de longe, as colheitas potenciais que essa cultura pode nos dar.

Por outro lado, o cultivo da mapira como estratégia na produção de alimento em quantidade e qualidade em regiões vulneráveis em termos climáticos, pode ser até mais interessante que o milho. Como a planta está muito melhor adaptada às condições de escassez de água e ao calor africano, seu cultivo pode ser uma espécie de apólice de seguro para eventuais crises alimentares em muitas partes do continente.

Nas nossas machambas da Agricultura Natural, tanto o milho quanto a mapira são presenças mais que obrigatórias!

quinta-feira, 15 de maio de 2014

AULA 12 - Texto de apoio


8. Plantio e transplantio
(Capítulo 8 do Módulo II da Apostila do Curso de Agricultura Natural) 

No capítulo anterior discutimos a importância da produçào adequada de mudas, especialmente daquelas plantas que possuem sementes muito pequenas. No entanto, por vezes é recomendado proceder à semadura direta de muitas culturas agrícolas, mesmo que estas tenham sementes pequenas, como é o caso, por exemplo, das cenouras.

Após atingir o período adequado de preparo do solo podemos iniciar o plantio/transplantio das culturas, respeitando-se, como já dissemos, a melhor época de produção, o tipo de solo mais adequado, bem como o espaçamento correto para cada caso.

A profundidade de semeadura das sementes varia com cada cultura, mas de forma geral, devemos semear a cultura a uma profundidade de 3 vezes o tamanho da semente. Sementes muito pequenas colocadas em profundidades muito elevadas podem não ter força suficiente para se desenvolver.



Plantio

Após o período de preparo da terra, retira-se o capim seco e revolve-se a terra novamente, pois durante o período de preparo podem ter se formado camadas duras na superfície do solo. Em seguida são abertas linhas de plantio e semeia-se a cultura desejada, respeitando-se o compasso. Por fim, cobre-se com uma fina camada de capim seco ou ainda o caniço, nesse último caso nos intervalos entre as linhas.


Plantio direto de rabanetas com caniço nas entrelinhas. Machamba Modelo da Agricultura Natural em Marracuene.


Transplantio

As culturas que necessitam de transplantio devem ser retiradas cuidadosamente do viveiro de mudas com o uso de uma pá de transplante, após atingirem 3 a 4 folhas definitivas. Abre-se uma cova no canteiro definitivo e planta-se a muda, nivelando-a com a superfície do solo. Em seguida, cobre-se com terra, preenchendo os espaços vazios e dando uma leve pressão para evitar bolsões de ar. Após o transplantio, deve proceder a rega e por fim cobre-se com capim seco para proteger a planta contra a radiação solar intensa e manter a umidade do solo por mais tempo.

O transplantio das culturas que estão em viveiro deverá ser realizado preferencialmente no período mais fresco do dia, ou seja, a partir das 16 horas, de forma que as plantas não sofram após sua transferência para o campo. 
 

Transplante de mudas.

 
Determinadas culturas necessitam de equipamentos adicionais para promover a semeadura dos campos. É o caso das cenouras, cebolas e rabanetes por exemplo. Essas culturas podem e devem ser plantadas com um certo adensamento, afim de garantir uma boa produção por hectare. Porém, o número de plantas por metro quadrado acaba sendo muito alto e se formos colocar as sementes no solo manualmente, certamente teremos muita dificuldade em obter os rendimentos agrícolas adequados. A alternativa, portanto, é usar semeadores e plantadeiras. No caso de cereais como o milho, por exemplo, a semeadura poderá ser feita manualmente caso a área a ser cultivada seja relativamente pequena. Porém, se a intenção é cultivar em grandes espaços, o uso de equipamentos é quase inevitável.

Existem no comércio diversos tipos de semeadeiras e plantadeiras. A escolha poderá ser feita, principalmente em relação ao capital disponível para ser investido. Mais uma vez, levando em consideração a realidade econômica de nossas comunidades agrícolas, vamos nos atentar aos equipamentos mais simples e baratos.



Uso de plantadeira tipo matraca no plantio de feijão no Pólo de Agricultura Natural da Moamba.






Plantadeira alternativa para sementes miúdas como cenouras, rabanetes e outros. Uma vídeo-aula mostrando a construcão desse equipamento pode ser visualizada no endereço https://www.youtube.com/watch?v=zBkDzmQIhXM.



terça-feira, 13 de maio de 2014

Roteiro da Aula 11 - Produção de Mudas (Viveiros)

Roteiro de aula: Produção de Mudas



1) Importância da produção de mudas.

2) Construção de viveiros para a produção de mudas.

3) Como escolher e preparar as bandejas de mudas.

4) Preparo de substrato para as bandejas.

5) Semeadura e irrigação.

6) Viveiros de árvores.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Roteiro de Aula de Campo - Pólo de Agricultura Natural da Moamba

Em nossa Aula de Campo no Pólo de Agricultura Natural da Moamba teremos a oportunidade de ver de perto alguns dos fundamentos da Agricultura Natural estudados ao longo do nosso curso.

Esse roteiro servirá de guia para as principais explicações que serão dadas no campo. Porém, a capacidade de observação de cada aluno, exercitada na primeira Aula de Campo em Marracuene, também será importante para que cada um consiga apreender os conceitos expostos e até mesmo fazer novas descobertas. O texto de referência para essa nossa Aula de Campo será o Módulo 2 da Apostila do Curso de Agricultura Natural.


1. Ecologia integral: pertencemos ao universo


2. Biodiversidade


3. Redes e interações agroecológicas


4. Zonas úmidas, irrigação e gestão da água


5. Cultivos consorciados


6. Manejo agroflorestal


7. Os quebra-ventos rápidos e a importância de proteger os campos do vento


8. Preparo do solo no manejo no manejo agroecológico


9. Otimizando os espaços e a produção agrícola


10. Cobertura do solo e a compostagem natural


11. Produção de mudas e semeadura direta com uso de equipamentos simples




terça-feira, 6 de maio de 2014

AULA 11 - Texto de apoio


7. Produção de mudas
(Capítulo 7 do Módulo II da Apostila do Curso de Agricultura Natural)

Agora que já conhecemos um pouco mais sobre a natureza do solo, já estudamos como organizar nosso terreno, reconhecemos as características de nossa área e região, preparamos nossos canteiros e fizemos nossas composteiras, chegou o momento de começarmos a aprender um pouco mais sobre como produzir adequandamente nossas mudas.
Muitas espécies de plantas, em especial as hortícolas, possuem sementes muito pequenas e suas plântulas são muito delicadas. Além disso, nessa fase do desenvolvimento vegetal, as raízes também são extremamente finas e qualquer descuido por parte do agricultor pode danificá-las, com considerável prejuízo no desenvolvimento final das plantas, além da necessidade que terá de consumir mais água de irrigação quando essas mudas forem transplantadas, como veremos um pouco mais a frente. Além disso, temos que levar em consideração também as questões econômicas, pois nem sempre as sementes que temos à disposição no mercado são baratas, principalmente levando em consideração a realidade sócio-econômica das comunidades de agricultores camponeses do interior da África.
Por outro lado, temos tentado também produzir e distribuir nossas próprias sementes oriundas da Agricultura Natural, principalmente para aquelas espécies vegetais de mais fácil propagação. Também temos incentivado um grande número de pequenos agricultores que o façam e distribuam parte de sua produção àqueles que queiram iniciar esse tipo de trabalho. Como já tinha ficado evidente anos atrás, a produção de sementes na ótica da Agricultura Natural também segue numa lógica um pouco diferente do sistema convencional. Por isso, as quantidades de sementes muitas vezes obtidas em nossos campos naturais não são as mesmas verificadas nos campos repletos de tecnocracia. Dessa forma, a produção adequada de mudas a partir de sementes naturais ganha, no nosso contexto africano, contornos que merecem um pouco mais de atenção.

Algumas sementes da Agricultura Natural produzidas em Moçambique.

Normalmente, os camponeses do interior moçambicano estão habituados a produzir suas mudas lançando as sementes adquiridas diretamente em canteiros, no que são chamados de sementeiras. Inicialmente, esse tipo de trabalho traz sim considerável economia de tempo, mas a longo prazo estarão imbutidas nessa equação variáveis que podem deitar por terra a sustentabilidade do sistema. Isto por vários fatores como veremos a seguir.
O primeiro ponto que precisamos considerar é o fato de que as sementeiras consomem grande quantidade de sementes sem que todas elas cheguem a ser transplantadas. Num levantamento que realizamos há alguns anos verificamos que, numa sementeira típica, o percentual de perda de mudas, que ou não eram transplantadas ou ainda não conseguiam sobreviver, era de mais de 50%. O agricultor precisa entender que quem mais ganha com esse tipo de prática é a indústria produtora e revendedora de sementes! Mas os danos não são somente esses.
No sistema de sementeiras, as plântulas nascem muito próximas umas das outras e assim seus delicados sistemas radiculares ficam entrelaçados. Ao serem separadas as mudas, por ocasião do transplantio, é impossível não danificar suas delicadas raízes. O resultado é o stress que a muda sofre ao ser colocada no seu local definitivo no canteiro. A maioria das mudas de hortícolas plantadas dessa maneira levam dias para recuperar seu vigor, quando o conseguem. E para tentar atenuar esse stress, acaba-se consumindo quantidades maiores de água na irrigação dos canteiros nessa fase. Além disso, existe a perda de tempo útil em que a planta já teria de estar dando continuidade ao seu desenvolvimento, mas que agora ela passa por um processo de quase ressuscitação no campo.
Quando começamos a discutir essas questões com nossa equipe de campo há alguns anos e também com agricultores familiares de nossa região, descobrimos que muitos deles simplesmente não acreditavam que uma única sementinha era capaz de se transformar numa planta vigorosa e produtiva. Acabamos por adotar o lema de que “uma semente, uma planta” na tentativa de convencê-los até mesmo do poder da natureza. Apesar das resistências normais a qualquer ideia nova por parte de um grupo de pessoas ou comunidade, começamos a preparar nossas primeiras bandejas de mudas, algo impensável para muito dos nossos colaboradores de até então.

Construindo o viveiro de mudas
Para a produção adequada de mudas é necessário termos um espaço devidamente protegido dos ventos fortes, da insolação direta e da ação predatória de alguns animais como galinhas e pássaros. Na fase de desenvolvimento inicial, as plântulas são uma verdadeira iguaria e por isso muitos animais as apreciam.
A construção do viveiro poderá ser feita usando-se materiais que muitas vezes são encontrados no próprio terreno ou nas suas vizinhanças. Também podem ser usados materiais comprados em lojas especializadas, mas no caso desse curso, vamos dar prioridade, sempre que possível, às formas mais simples de fazê-lo, levando em conta, mais uma vez, a realidade de nossas comunidades agrícolas.
O primeiro passo é determinar a quantidade de mudas que serão necessárias para manter o campo em produção permanente. Isto é, a quantidade de mudas que precisam ser produzidas ao longo dos meses para garantir que quando um pé de repolho, por exemplo, seja colhido, exista uma muda daquela mesma planta pronta para ser plantada no mesmo lugar da que foi retirada. Esse aspecto é de vital importância, pois dependendo da cultura desejada temos janelas de cultivo bem estreitas no decorrer do ano e nesses casos, cada dia conta. Além disso, terra parada inutilmente não produz comida e precisamos aproveitar ao máximo as atividades microbiológicas do solo, os compostos incorporados e a água de irrigação para otimizar nossa produção agrícola. Assim, dentro das condições normais, quanto menos tempo nossos canteiros permanecerem vazios entre uma colheita e o replantio, melhor.
Uma forma simples de construir um pequeno viveiro de mudas, usando estritamente materiais locais, pode ser visto na figura abaixo. Esse viveiro foi construído com estacas de madeira e no lugar do tradicional sombrite usaram-se folhas de coqueiro entrelaçadas.

Viveiro de mudas construído com estacas de madeira e folhas de coqueiro na comunidade do Chitondo, interior da província de Inhambane.

Mas para o caso de se desejar uma produção maior de mudas, podem ser construídos viveiros maiores. Um de nossos viveiros foi construído com as dimensões de 5 x 10 metros, usando basicamente toras e estacas de madeira para as estruturas, caniço para os revestimentos laterais e sombrite para a cobertura. A sequência de fotos a seguir mostra algumas etapas da construção desse nosso viveiro, instalado em Marracuene.

Implantação do viveiro de mudas na Machamba Modelo de Agricultura Natural de Marracuene.

Devemos tomar cuidado para não construirmos o viveiro em áreas muito sombreadas. Muitas das espécies de culturas necessitam de uma certa insolação para que suas sementes germinem bem e se desenvolvam adequadamente. Dentro do possível, procuramos instalar nossos viveiros em alguma área que permita um sombreamento somente parcial. Isto porque, em alguns casos, há plantas que já não suportam o forte calor africano e as sombras acabam ajudando a atenuar as temperaturas no interior dos viveiros.
A produção de mudas de hortícolas, bem como frutíferas, florestais e/ou nativas requer cuidados diários, uma vez que problemas adversos podem ocorrer durante o período de desenvolvimento da muda, podendo, assim prejudicar todo seu planejamento de produção. Devemos observar a porcentagem de germinação das sementes, acompanhar o seu desenvolvimento e verificar como se comporta em situações de calor intenso, falta de luz solar no viveiro, falta ou excesso de água, etc. O resultado deste comportamento poderá definir a melhor época de cultivo das mesmas. É muito importante o agricultor ter o hábito de anotar todas as informações pertinentes, bem como as observações que for fazendo ao longo do tempo para que, no futuro, essas mesmas informações possa ajudá-lo a otimizar cada vez mais a sua produção agrícola.

Preparando as bandejas de mudas
Para preparar mudas de forma adequada precisamos de algum investimento. Agora é que a economia de recursos financeiros que a Agricultura Natural nos proporciona começa a mostrar seus resultados. Parte do dinheiro economizado quando evitamos comprar adubos e defensivos, poderá ser utilizado em investimentos mais duradouros na propriedade como por exemplo bandejas de mudas e eventuais sistemas simplificados de rega.
Evidentemente que em escalas domésticas ou mesmo em pequenas hortas escolares, podemos utilizar materiais alternativos e recicláveis tais como bandejas de ovos, garrafas plásticas e outros. Mas já para uma produção mais sistemática, bandejas próprias para mudas acabam sendo muito mais interessantes a médio e longo prazos.
Basicamente, em Moçambique, existem dois tipos de bandejas para mudas. A mais comum e barata é feita de plástico e possui modelos com as células de vários tamanhos. Outro tipo de bandeja são aquelas feitas com esferovite (isopor), de preço um pouco mais elevado. Nossa experiência tem mostrado que tendo os cuidados necessários, essas bandejas podem durar anos e sua aquisição pode ser feita por sistemas de cotas entre grupos de agricultores, com redução considerável dos custos individuais iniciais. 
 
Tipos diferentes de bandejas de mudas. A esquerda vemos as bandejas de esferovite e a direita as de plástico.

Uma vez escolhida a bandeja passamos para a produção do substrato. A produção de mudas requer alguns cuiados especiais e um deles diz respeito ao material sobre o qual iremos lançar nossas sementes. Convencionalmente, esses substratos são oferecidos já “enriquecidos” com fertilizantes químicos e muitas vezes já com algum tipo de defensivo (agrotóxico). No nosso caso, porém, temos na produção das mudas a primeira oportunidade de reeducar nossas sementes, principalmente aquelas ainda adquiridas comercialmente, ao tipo de manejo que a planta irá receber ao longo do seu desenvolvimento. Nossos substratos não recebem nenhum tipo de adição de substâncias sintéticas e tentamos mantê-los o mais próximo possível, em termos de composição, ao tipo de solo que as futuras plantas terão à sua disposição.

Preparo do substrato
O substrato que devemos colocar nas bandejas de produção de mudas (plástica, esferovite) deverá ser preparado com 50% de terra (arenosa) e 50% de composto cortado em partículas bem reduzidas. Em seguida, devemos molhar o substrato até atingir umidade de 30%, de forma que possamos preencher as bandejas sem que o solo seja perdido nas aberturas do fundo. Uma forma prática de saber se a umidade está adequada é pegar uma porção de substrato na mão e apertá-la. Se, ao abrir a mão, não se formar um torrão significa que ainda precisa de mais água. Se ao apertar o substrato escorrer água entre os dedos, significa que a umidade está excessiva. O ideal é que se forme um torrão que se desfaça com o apertar dos dedos da outra mão.

Preenchimento das bandejas de mudas com substrato.

Nesta etapa podemos usar misturas de terra e areia, acrescida de composto de folhas secas bem trituradas. Uma alternativa que verificamos com o passar dos anos é usar a terra escurecida que fica no fundo de nossas composterias ou mesmo a camada superficial de solos que encontramos em áreas de cultivo de composto, ou seja, naquelas áreas onde deixamos o mato crescer com o acúmulo de restos de folhas das árvores. Uma outra proporção interessante a ser usada na formulação do substrato é ter 50% de areia, 30 a 40% de composto natural e 10 a 20% do solo dos canteiros que receberão as mudas. Porém, para cada região, os próprios agricultores poderão desenvolver seus substratos de forma mais adequada às suas necessidades e condições locais. O conceito que precisa ficar claro é que esse material precisa ser leve para que as plântulas possam desenvolver suas raízes de forma adequada, sem adensamentos e estagnação de água.

Semeadura
Antes de terminar o preenchimento do substrato nas bandejas, deve-se deixar uma pequena parte não preenchida de cerca de 3 mm e iniciar a semeadura das culturas. Vale ressaltar que a profundidade de plantio poderá variar de acordo com cada cultura. Após semear as sementes, cobrir as bandejas com a mesmo substrato preparado e regar com pulverizador.

Semeadura nas bandejas de mudas.

O tempo de permanência das mudas no viveiro varia de acordo com a cultura, podendo estar entre os limites de 20 a 30 dias. De forma técnica, as plantas devem ser transferidas para o canteiro quando estiverem com 3 a 4 folhas definitivas.

Irrigação das bandejas
Por fim, devemos também ter muito cuidado com a irrigação das bandejas contendo as sementes e plântulas. Nessa fase, se não houver a atenção necessária, jatos fortes de água podem até mesmo deslocar as sementes de seus receptáculos e no caso das plântulas danificá-las severamente. O ideal é que essa operação seja feita com o auxílio de pulverizadores, desde que nunca tenham sido usado, anteriormente, com venenos e agrotóxicos. Sistemas adaptados de microaspersão também podem ser usados. 
 
Irrigação de mudas com o uso de pulverizador.


Uma alternativa muito interessante, e de custo quase zero, é construir os nossos próprios regadores de viveiros. Para isso, basta tomar uma garrafa PET de água, por exemplo, e com o auxílio de uma agulha de costura com a ponta aquecida ao rubro, perfurar a parte lateral superior. Dessa forma, será possível obter um fluxo muito suave de água e assim evitamos maiores problemas.


Regador para mudas fabricado com garrafa PET reciclada.


Viveiro de espécies florestais e frutíferas
Para a produção de mudas de espécies frutíferas, florestais e/ou nativas devemos preparar bem o solo que serão colocados nas bolsas plásticas, pois o tempo de permanência das diferentes espécies de plantas no viveiro podem variar de meses a até dois anos, dependendo da espécie. O substrato poderá ser feito da mesma forma proposta para o viveiro de hortaliças e em seguida, semeadas as culturas.
 
Produção de mudas de espécies florestais frutíferas no viveiro da Machamba Modelo da Agricultura Natural em Marracuene.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Roteiro da Aula 10 - Compostagem

 
Roteiro de aula:

1) O que é composto?

2) Como preparar o composto?

3) Material semi-decomposto e suas vantagens.

4) Ativação da microbiota do solo com composto de plantas nativas.

5) Cuidados com a origem do material a ser compostado.

6) Uso de resíduos de origem animal na compostagem e problemas envolvidos.

7) Construindo a composteira na mandala ou área de cultivo.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Texto complementar de apoio didático

Vivemos tempos de Noé

(Leonardo Boff)
 25/04/2014

Vivemos tempos de Noé. Pressintindo que viria um dilúvio, o velho Noé convocava as pessoas para mudarem de vida. Mas ninguém o ouvia. A contrário, “comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento até que veio o dilúvio e os fez perecer a todos”(Lc 17,27; Gn 6-9).

Os 2000 cientistas do IPCC que estudam o clima da Terra são nossos Noés atuais. O terceiro e último relatório de 13/4/2014 contem grave alerta: temos apenas 15 anos para impedir a ultrapassagem de 2 graus C do clima da Terra. Se ultrapassar, conheceremos algo do dilúvio. Ninguém dos 196 chefes de Estado disse qualquer palavra. A grande maioria continua a explorar os bens naturais, negociando, especulando e consumindo sem parar como nos dias de Noé.

Entrevejo três graves irresponsabilidades: a geral e a específica e supina ignorância do Congresso norte-americano que vetou todas as medidas contra o aquecimento global; a manifesta má vontade da maioria dos chefes de Estado; e a falta de criatividade para montar as traves de uma possivel Arca salvadora. Como um louco numa sociedade de “sábios” ouso propor algumas premissas. Se algum mérito possuirem, é o de apontarem para um novo paradigma civilizacional que nos poderá dar outro rumo à história. Ei-las:

1. Completar a razão instrumental-analítica-científica dominante com a inteligência emocional ou cordial. Sem esta não nos comovemos face à devastação da natureza e não nos engajamos para resgatá-la e salvá-la.

2. Passar da simples compreensão de Terra como armazém de recursos para a visão da Terra viva, superorganismo vivo que se autoregula, chamado Gaia.

3. Entender que, como humanos, somos aquela porção da Terra que sente, pensa e ama, cuja missão é cuidar da natureza.

4. Passar do paradigma da conquista/dominação ainda vigente, para o paradigna do cuidado/responsabiidade.

5.Entender que a sustentabilidade só será garantida se respeitarmos os direitos da natureza e da Mãe Terra.

6. Articular o contrato natural feito com a natureza que supõe a reciprocidade inexistente com o contrato social que supõe a colaboração e          inclusão de todos, insuficiente.

7. Não existe meio-ambiente mas o ambiente inteiro. O que existe é a comunidade de vida com o mesmo código genético de base,estabelecendo um parentesco entre todos.

8.Abandonar a obsessão pelo crescimento/ desenvolvimento pela redistribuição da riqueza já acumulada.

9.Devemos produzir para atender demandas humanas mas sempre dentro dos limites da Terra e de cada ecossistema.

10.Pôr sob controle a voracidade produtivista e a concorrência sem limites em favor da cooperação e da solidariedade pois todos dependemos uns dos outros.

11.Superar o individualismo pela colaboração entre todos, pois esta é a lógica suprema do processo de evolução.

12. O bem comum humano e natural tem primazia sobre o bem comum particular e corporativo.

13.Passar da ética utilitarista e eficientista para a ética do cuidado e da responsabilidade.

14.Passar do consumismo individualista para a sobriedade compartida. O que nos sobra, falta aos demais.

15. Passar da maximização do crescimento para a otimização da prosperidade a partir dos mais necessitados.

16. Ao invés de permanentemente modernizar, ecologizar todos os saberes e processos produtivos visando tutelar os bens e serviços naturais e dar descanço à natureza e à Terra.

17. Opor   à era do antropoceno que faz do ser humano uma força geofísica destrutiva, pela era ecozóica que ecologiza e inclui todos os seres no grande sistema terrenal e cósmico.

18. Valorizar o capital humano/espiritual inexaurível sobre o capital material exaurível porque o primeiro fornece os critérios para as intervenções responsáveis na natureza e alimenta permanentemente os valores humano-espirituais da solidariedade, do cuidado, do amor e da compaixão, bases para uma sociedade com justiça, equidade e respeito à natureza.

19.Contra a decepção e a depressão provocadas pelas promessas não cumpridas de bem-estar geral feitas pela cultura do capital, alimentar o princípio-esperança, fonte de fantasia criadora, de novas idéias e de utopias viáveis.

20. Crer e testemunhar que, no fim de tudo, o bem triunfará sobre a mal, a verdade sobre a mentira e o amor sobre a indiferença. Um pouco de luz poderá espancar uma imensidão de trevas.

Leonardo Boff escreveu Opção Terra: a solução da Terra não cai do céu, Record, Rio 2010.

http://leonardoboff.wordpress.com/2014/04/25/vivemos-tempos-de-noe/