sexta-feira, 27 de junho de 2014

Apostila do Curso de Agricultura Natural - Módulo 3

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quinta-feira, 26 de junho de 2014

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA

MANIFESTO SOBRE O FUTURO DA ALIMENTAÇÃO
Comitê Internacional para o Futuro da Alimentação e da Agricultura

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"Este Manifesto é o resultado de um esforço conjunto de participantes das reuniões do Comitê Internacional para o Futuro da Alimentação durante o fim de 2002 e o início de 2003, na Toscana, Itália. O governo da região Toscana participou ativamente e apoiou o trabalho do Comitê. O Manifesto procura ser a síntese do trabalho realizado e das idéias expostas por centenas de organizações de todo o mundo, e por milhares de indivíduos, que buscam ativamente reverter a alarmante tendência atual para a industrialização e a globalização alimentar. Simultaneamente, o Manifesto inclui uma crítica sobre os perigosos direcionamentos do presente e, principalmente, organiza a visão pratica, as idéias e os programas voltados para assegurar que a alimentação e a agricultura se tornem mais sustentáveis social e ecologicamente, mais acessíveis, e para colocar a qualidade alimentar, a segurança alimentar e a saúde pública acima de vantagens empresariais. Esperamos que este manifesto sirva como um catalisador para unificar e fortalecer o movimento em prol da Agricultura Sustentável, da soberania alimentar, da biodiversidade e da diversidade agrícola e que ele ajude assim a reduzir a fome e a pobreza do mundo. Precisamos urgentemente de pessoas e comunidades que o traduzam e o utilizem, apropriadamente para as suas necessidades, e para disseminar os princípios e idéias que ele contém, de todas as maneiras possíveis."

terça-feira, 24 de junho de 2014

AULA 18: Produção de doces e geléias


4. Produção de doces e geléias

(Capítulo 4 do Módulo 3 da apostila do Curso de Agricultura Natural)

A produção de doces e geléias (jams) é uma alternativa não apenas para agregar valor à produção da machamba mas também uma forma de conseguir preservar parte de nossas colheitas. Se bem conduzida, a produção de doces, geléias, licores, etc. implica em redução de parte do teor de água de muitos dos nossos alimentos e também da introdução de açúcar que, ao aumentar a pressão osmótica do nosso alimento processado, reduz a ação de microrganismos degradadores. Já para o caso dos produtos fermentados como os licores, o teor de álcool no final do processo é que irá desempenhar esse papel de preservação. Mas cuidado! Não existe magia nesse tipo de processamento e todos os cuidados com higienização, preparo do ambiente de trabalho, cuidado com a escolha dos alimentos nos pontos de maturação corretos e a própria técnica de fabrico são fundamentais para garantir a qualidade dos produtos finais e consequentemente alcançar os rendimentos desejados bem como os tempos de preservação possíveis para cada caso.

Existem vários tipos de doces. Como exemplo podemos citar as frutas cristalizadas, os doces em caldas, também chamados de compotas, os doces pastosos e as geléias. As variações nas receitas são quase infinitas, se lembrarmos que muitos doces podem ser combinações de dois ou mais ingredientes como no caso do doce de abóbora com coco ou ainda as compotas mistas de de papaia e manga, e muitos outros.



Preparo dos frascos de vidro para armazenamento dos doces e geléias

Tão importante quanto preparar corretamente nossos doces e geléias é o cuidado que devemos ter com a higienização dos materiais com os quais iremos cozinhar. E além disso, será fundamental conseguirmos esterilizar corretamente os frascos de vidro nos quais iremos armazenar nossos produtos.

O ideal é que sejam usados frascos novos, com tampas metálicas. Entretanto, é sabido que em muitas regiões esses materiais não estão prontamente disponíveis, principalmente no interior das províncias de muitos países africanos. Sendo assim, ao escolher algum frasco de vidro que tenha sido usado anteriormente, assegure-se de que não tenha armazenado nenhum tipo de produto perigoso à saúde como venenos, detergentes, combustíveis, etc.

O processo de esterilização dos frascos é relativamente simples de se fazer. Basta ter um grande caldeirão com água fervente e deixar os materiais nesse processo por pelo menos 5 (cinco) minutos. Isso inclui tanto os frascos como as tampas metálicas. Dessa forma, todo e qualquer resíduo de material orgânico onde eventualmente possa ter crescido e desenvolvido algum tipo de microrganismo prejudicial à saúde, irá ser retirado e os microrganismos mortos.

Os frascos esterilizados dessa maneira não podem mais ser lavados em água corrente e devem ser guardados tampados com todo o cuidado até o momento do uso. Recomenda-se que eles sejam armazenados numa caixa plástica com tampa para não mais serem contaminados com materiais estranhos. A sua manipulação tembám precisará ser feita com o auxílio de luvas limpas ou mesmo algum tipo de pegador ou pinça. Se estes cuidados não forem tomados, todo o processo de esterilização deverá ser repetido antes dos frascos serem utilizados.



Doce de abóbora

O cultivo das abóboras pode ser tornar um negócio bem rentável para o agricultor camponês. Além de ser um alimento muito nutritivo e saboroso, sua versatilidade culinária pode agregar considerável valor à cadeia de produção agroecológica da propriedade camponesa. Assim, as abóboras podem ser usadas em cremes e sopas, além de vários tipos de doces e geléias. Vale ressaltar que todas as partes do fruto são comestíveis e nutritivos e, na medida do possível, será muito interessante aproveitá-lo integralmente. As sementes podem, por exemplo, ser torradas e depois consumidas inteiras ou ainda trituradas e misturadas em produtos de panificação; as cascas podem ser fritas como batatas ou ainda cozidas e usadas como ingredientes de sopas; o miolo, aquela “rede” que prende as sementes no interior do fruto, pode ser usada até como uma espécie de espagueti. Contudo, para a produção de doces, o mais comum é usarmos a polpa que deverá estar bem madura. A seguir vamos dar, a título de exemplo, uma receita típica de doce de abóbora com coco. Mas atenção! Esta receita não é única e nem imutável. Tenha em mente que sua criatividade e talento na cozinha poderão fazer a diferença na hora de se produzirem verdadeiras iguarias que certamente irão atrair muitos clientes e compradores ocasionais de seus produtos.



RECEITA

  • 1 kg de abóbora sem casca e cortada em pedaços médios
  • 2 chávenas de chá de açucar castanho
  • 1 canela (cinamomo) em pau
  • 3 cravos da índia
  • Coco ralado fresco a gosto
  • Em uma panela grande colocar a abóbora, o açúcar, a canela e os cravos. Levar para cozinhar em lume brando com a panela tampada. Mexer sempre e amassar com uma colher de pau para desmanchar a abóbora. Quando ela estiver bem cozida, retirar a canela e os cravos e juntar o coco. Deixar apurar mais um pouco e desligar o lume. O doce não pode ficar seco, tem que ficar bem úmido.



O armazenamento do doce de abóbora deverá ser feito em frascos de vidro previamente esterilizados. Coloque o doce no vidro aos poucos, certificando-se de que não fiquem bolhas de ar no interior da massa. Isso pode ser conseguido usando-se um garfo metálico limpo para mexer levemente o doce no interior do vidro e ainda com algumas batidas leves no fundo do frasco. Em seguida, colocar a tampa no vidro de modo a não fechá-la totalmente. Levar o conjunto de vidro para um caldeirão de alumínio e cuidadosamente adicionar água até que esta fique na metade da altura dos vidros. Acender o lume e deixar ferver por 20 (vinte) minutos. Com muito cuidado, retirar os vidros segurando pelas tampas semi-rosqueadas e imediatemente fechá-las bem. Pronto! Seu doce poderá ser conservado por meses antes do frasco ser aberto. Porém, assim que abrir o frasco, o consumo do doce (ou geléia) deverá ocorrer em poucos dias, se forem mantidos em geleiras.



Geléia de massala (jam de massala)

A massala (monkey fruit) pode ser uma excepcional fonte de renda para os agricultores. Normalmente na região de Maputo, os agricultores se limitam a vender apenas os frutos maduros, recolhidos das matas e machambas onde essa fruta nasce de forma espontânea. Contudo, pelas suas propriedades nutricionais e sabor característico, a massala tem um grande potencial econômico e estratégico para o desenvolvimento econômico de famílias de agricultores camponeses.

O processamento da massala passa pelo seu despolpamento. Uma forma bem caseira de se conseguir isso é usando um processador caseiro como mostrado na foto abaixo. O uso de alguns acessórios fáceis de serem encontrados nesse tipo de equipamento ajuda muito na hora de separar a polpa da massala das sementes. O despolpamento manual também pode ser feito, mas nesse caso o tempo e o rendimento do trabalho serão bem menores. Outra alternativa é usar uma peneira de aço, com abertura de aproximadamente 5 mm, e raspar a polpa recém retirada do fruto em sua superfície. Porem, tenha em mente que operações manuais como estas devem ser precedidas dos devidos cuidados com a higiene pessoal, como já foi discutido anteriormente.








(Processador caseiro usado para despolpar a massala.)


Uma vez obtida a polpa da massala podemos processá-la imediatamente ou ainda congelá-la, preservando-a assim por vários meses. Isso pode ser muito interessante, pois o produtor que dispuser de um pequeno freezer (arca) poderá conservar polpas de frutas para serem oferecidas no mercado em épocas onde normalmente já não estão disponíveis nos mercados. Além disso, o agricultor também pode gerenciar melhor sua própria produção, escalonando o processamento à medida que for tendo demanda pelos seus produtos ou ainda de acordo com as próprias instalações de processamento que ele possuir.

A geléia de massala é um dos produtos mais simples que podem ser obtidos com a polpa, congelada ou não. Na sua receita entram apenas dois ingredientes, a polpa de massala e o açúcar castanho (preferencialmente). Pode ser usada uma proporção de 2:1 entre a polpa e o açúcar. Por exemplo, para cada 0,5 kg de polpa de massala, usamos 250 g de acúcar castanho. Essa proporção poderá ser modificada, mas atenção para o uso do açúcar. É bom evitar os excessos e dessa forma aumentar a proporção de acúcar na mistura não só deixará o produto demasiadamente doce como também poderá causar eventuais problemas para quem os consumir em maiores quantidades. O ideal, portanto, é usar uma quantidade mínima de açúcar para garantir a preservação do doce sem transformá-lo numa “bomba calórica”, e ainda fazendo com que os sabores das frutas se sobressaiam ao sabor do próprio açúcar.



RECEITA

  • 500 g de polpa de massala
  • 250 g de açúcar
  • Misturar os ingredientes numa panela e levar ao lume brando. Deixar levantar fervura e mexer com um colher de pau suavemente e de forma constante, evitando que se forme um crosta no fundo da penela, por 20 minutos. Retirar do lume e transferir para um recipiente limpo, preferencialmente de vidro, e deixar esfriar. Servir com bolachas, pão ou ainda como cobertura ou recheio de bolos.


O armazenamento da geléia de massala deverá ser feito exatamente como no caso do doce de abóbora.



Geléia de morango

Como veremos mais adiante no nosso Curso de Agricultura Natural, o cultivo de morangos pela Agricultura Natural vem sendo um sucesso na região de Maputo. Porém, um dos pontos críticos no sistema global de produção é a preservação dos frutos maduros que, via de regra, necessitam de um ambiente refrigerado e, como não usamos nenhum tipo de conservante, um curto espaço de tempo entre a colheita e a sua comercialização. Portanto, a produção de geléias é uma das alternativas de mais baixo custo ao produtor camponês para conservar sua produção de morangos diante das condições que muitas vezes se verificam de falta de logística de armazenamento e transporte dos produtos frescos.

Diferentemente do caso das massalas, os morangos não precisam ser despolpados, o que falicita em muito a produção de geléias e doces. Contudo, é necessário lavar bem os frutos e retirar as folhas da base do fruto antes de processá-lo. Isto significa, mais uma vez, cuidados adicionais com a higiene pessoal, do local de trabalho e dos utensílios que serão utilizados durante o trabalho.

Basicamente podemos desenvolver dois tipos de geléias de morango. O primeiro tipo é obtido com os frutos inteiros e a geléia assim obtida é própria para acompanhar sorvetes, coberturas e recheios de bolos, etc. O segundo tipo é feito com os frutos triturados e produzirá uma geléia mais uniforme, sem pedaços de frutas que será ideal para passar no pão ou em bolachas. Esse tipo de geleia mais pastosa é o padrão usado por muitos restaurantes e hotéis, que poderão ser um interessante mercado consumidor para esse produto.



RECEITA

  • 600 g de morangos maduros (inteiros ou triturados)
  • 380 g de açucar castanho
  • 1 colher de sumo de limão fresco
  • Colocar todos os ingredientes numa panela e, sob lume brando, deixar cozinhar por cerca de 35 minutos, mexendo de vez em quando para não deixar grudar no fundo. Não é necessário adicionar água pois o sumo dos frutos irá ser liberado rapidamente, facilitando o cozimento da mistura. Transferir para frascos de vidro previamente limpos e esterilizados ainda quente. Tampar e deixar esfriar antes de consumir.

O armazenamento da geléia de morango deverá ser feito exatamente como no caso do doce de abóbora.



Licor de Laranja (Cointreau)

Os licores também são uma excelente alternativa para agregar valor na produção agrícola camponesa. Praticamente podemos obter bons licores de quase todas as frutas de nossa machamba. Contudo, para cada tipo de fruta, ou parte dela, existe uma forma específica de praparar as infusões que produzirão os licores. Licores de frutas como a laranja, a tangerina e o ananás, por exemplo, são produzidos a partir das cascas. Já no caso de jambalões e outros frutos similares, os licores são obtidos pela infusão dos frutos inteiros.

No caso do licor de laranja e de tangerina, precisamos preparar as cascas antes de promover a infusão. Dessa forma, selecionamos os melhores frutos com as cascas mais uniformes e bonitas. Estas cascas, depois de retiradas, são deixadas a secar à sombra por pelo menos uma semana. Dessa forma, extraímos a maior parte de substâncias voláteis que poderiam conferir um sabor demasiado forte ao nosso licor. Depois de secas, as cascas são transferidas para um vidro de boca larga (e tampa) e em seguida adicionamos açúcar fino e álcool de cereais ou vodka.

O açúcar fino é preferível ao açúcar cristal pois facilitará o processo de dissolução natural e o consequente aumento do grau alcoólico do licor. Na medida do possível, devemos evitar o consumo do açúcar refinado industrialmente, pois no seu processamento global são acrescidos diversos químicos que, com um consumo constante, podem levar a alguns problemas sérios de saúde. A forma mais simples de obter açúcar fino em casa é batendo uma quantidade de açúcar cristal marrom no liqüidificador. Contudo, se não tiver um liqüidificador, pode usar o açúcar cristal marrom diretamente no preparo do licor.



RECEITA

  • Cascas de 6 frutos de laranja (ou tangerina) limpas e secas
  • 1 kg de açúcar fino (ou açúcar cristal marrom, preferencialmente).
  • 1 litro de álcool de cereais (próprio para produção de licor), vodka ou aguardente.
  • Coloque todos os ingredientes num vidro com tampa larga. Deixe descansar à sombra e em local limpo por pelo menos 1 (uma) semana (quando provavelmente todo o açúcar irá se dissolver). Com a ajuda de uma colher de aço inoxidável e uma peneira, separar as cascas de laranja e deitá-las fora. Retornar o líquido para o vidro e tampá-lo bem. O ideal é deixar o licor descansar por pelo menos 1 (um) mês antes de ser consumido.



OBSERVAÇÕES IMPORTANTES!

1) Como estamos trabalhando com a Agricultura Natural, não temos preocupações com a presença de químicos tóxicos oriundos de pulverizações em nossos pomares de frutas. Por isso, utilizamos as cascas de laranja (e tangerina) sem esse tipo de preocupação.

2) O álcool etílico (etanol) vendido em farmácias e supermercados não pode ser usado para fins alimentícios, pois ele contém traços de metanol, um poderoso químico que causa complicações à saúde, em especial aos olhos.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

AULA 17: Texto de apoio


3. Processamento mínimo e embalagem
(Capítulo 3 do Módulo 3 da apostila do Curso de Agricultura Natural)

Após a etapa de higienização dos nossos produtos agrícolas vem o processamento e embalagem. O processamento pode se dar em vários níveis, dependendo do grau de investimento possível e desejado bem como da capacidade do próprio agricultor em elaborar produtos como geléias, doces, licores, etc.
Contudo, uma forma bem simples de iniciar nas atividades de processamento é o chamado processamento mínimo. Essa é uma operação comparativamente mais simples que aquela verificada na obtenção de produtos mais elaborados, mas também pode agregar imenso valor na produção agrícola.
Um exemplo de processamento mínimo é quando picamos as folhas de couve e as embalamos em bandejas adequadas. Dessa forma, oferecemos produtos prontos para uso e isso acaba por conferir um considerável aumento no valor de venda final, já que foram agregados os valores relativos ao trabalho de lavar, selecionar, picar e embalar as folhas de couve. Contudo, é evidente que para que tenhamos sucesso nesse tipo de produto, os cuidados com a higienização e manipulação deverão ser muito maiores e as operações deverão ser executadas em ambientes satisfatórios sob pena dos produtos não conseguirem se manter viáveis, mesmo dentro das embalagens.


Mix de verduras e legumes
Essa é uma alternativa muito interessante para melhor aproveitamento dos produtos. Ao selecionarmos, por exemplo, cenouras, rabanetes, etc., é comum deixarmos aquelas raízes tortas ou mesmo quebradas de lado. Esses produtos são igualmente nutritivos e saborosos, razão pela qual não devemos, em hipótese nenhuma, desperdiçá-los. Por outro lado, nosso mercado consumidor, de uma maneira geral, ainda é refém de uma cultura midiática e tende a desmerecer e desvalorizar produtos com esse tipo de apresentação. Portanto, uma maneira de conseguirmos aproveitar melhor nossos produtos da machamba ao mesmo tempo em que vamos reeducando o paladar de nosso público consumidor, é conseguindo apresentar melhor esses mesmos produtos.
Uma forma de fazê-lo é preparando misturas (ou mix) de diversas folhas e legumes, devidamente limpos e picados, e embalando em bandejas revestidas com filme plástico. Dessa forma, também promovemos uma maior preservação dos produtos e facilitamos seu transporte por parte dos consumidores. 
 






 
(Mix de verduras e legumes da Agricultura Natural prontos para serem comercializados)

O uso de embalagens plásticas, na medida do possível, devem ser evitadas. Claro que não faria sentido, a essa altura dos nossos estudos, fazer apologia ao uso de materiais não-biodegradáveis e que estimulam toda uma cadeia da indústria química. Mas por outro lado, temos por princípio o bom senso e o pragmatismo. Por vezes, a fim de chamar a atenção para o alto valor nutritivo de muitos de nossos alimentos, principalmente aqueles tradicionais e locais, temos de lançar mão de alguns caminhos e estratégias, ainda que por um tempo definido. Por outro lado, alguns produtos precisam ser adequadamente envasados sob pena de não suportarem nem mesmo o seu transporte da feira até o lar, como é o caso dos morangos que não conseguem se manter inteiros e frescos se forem colocados num saco de papel. O mesmo vai acontecer com os mix de verduras e legumes ou ainda no caso de sumos, doces e geléias. Contudo, a maioria dos materiais usados nesse tipo de embalagens podem ser reciclados e reutilizados. Claro que nosso "sonho de consumo" se realiza quando nossos clientes trazem de casa seus próprios vasilhames e estimulamos nossos agricultores parceiros que também fiquem atentos para esse tipo de prática ao formarem suas próprias redes de consumidores.
Contudo, pode ser o caso dos produtores conseguirem acordos comerciais interessantes junto a supermercados ou mesmo lojas especializadas em produtos biológicos, como muitas vezes são chamados os produtos da Agricultura Natural em vários países. De fato, temos postulado ao longo dos anos que o setor da agricultura familiar pode e deve ser inserido no mercado formal como uma alternativa interessante para levar alimentos verdadeiramente mais saudáveis à sociedade e também como uma das formas de buscar a dignidade do produtor camponês através do seu desenvolvimento econômico. No caso do fornecimento de produtos a redes de lojas ou supermercados, quando for o caso, serão necessários cuidados adicionais no que diz respeito à higienização e embalagem dos alimentos, razão pela qual introduzimos essa discussão no presente curso.

Valorização do alimento local e tradicional
Vamos adiantar um pouco uma discussão que será abordada futuramente no nosso curso, que são os produtos agrícolas tradicionais e locais. No Módulo 5, vamos aprofundar nesse tema, mas por hora gostaríamos de chamar a atenção paras as imagens seguintes:
















(Alguns alimentos tradicionais vendidos nas feiras de rua em Maputo. O mau acondicionamento e a falta de higiene de muitos desses locais pode prejudicar a qualidade do alimento, que naturalmente costuma ser muito nutritivo)

As imagens anteriores mostram um pouco da realidade da maioria dos mercados de rua na cidade de Maputo e esta cena se repete pelo interior do país e de praticamente todo o continente africano, com algumas exceções, claro.
Um fato que sempre nos chamou a atenção é a procura que determinados produtos agrícolas têm nesses mercados informais. Porém, quase sempre os preços praticados são baixos e quase não cobrem os custos nem do transporte do campo para o mercado, e talvez por isso os próprios agricultores acabam não valorizando devidamente suas respectivas lavouras, apesar da maioria desses alimentos, como veremos futuramente, possuírem valores nutricionais muito acima da média daqueles produtos agrícolas clássicos vendidos nos supermercados.
Também pelas imagens fica claro os potenciais problemas à saúde ocasionados pela falta de higiene bem como pela manipulação inadequada desses alimentos. Foi pensando nisso que, há alguns anos, introduzimos nos nossos cursos e treinamentos, esse módulo de estudo da higienização e embalagem dos produtos agrícolas. Para nossa surpresa, descobrimos que a maioria desses produtos tradicionais, quando devidamente apresentados ao publico consumidor, são os primeiros a se esgotarem em nossas bancas de feiras ou mesmo no sistema de encomendas, que também vamos discutir mais detalhadamente no futuro. 
 











(Folhas de tsec (caruru) embaladas e prontas para a venda)


Usamos a expressão tirar os produtos do chão como uma das formas de mostrar seu verdadeiro valor e muitos desses vegetais, inclusive, fazem parte de sofisticados e elaborados ingredientes culinários na Europa, Ásia e América, mais uma razão para os agricultores e consumidores moçambicanos ficarem ainda mais atentos às suas preciosidades locais. Exemplos disso são as plantas da família dos amarantos, que recebem vulgarmente o nome de tsec; a vinagreira, cujos frutos em conservas são exportados para o mundo todo a partir da Alemanha; a mexoeira, a partir da qual pode ser produzido um "leite vegetal" de excepcionais propriedades nutricionais, etc. Além desses a lista segue com a cacana, a nhangana, a dledlele, a mboa e muitos outros.



(As folhas de vinagreira podem ser consumidas cruas em saladas ou refogadas. As flores são usadas em chás e os frutos como conserva. Machamba-modelo da Agriultura Natural de Marracuene)

Acondicionar e apresentar melhor os nossos produtos da machamba
Um melhor acondicionamento dos nossos produtos agrícolas, como vimos, além de promover sua maior preservação também ajuda a valorizá-los. A exposição dos produtos no momento da venda bem como a simpatia e cortesia por parte do agricultor são fatores que irão contribuir ainda mais para o sucesso do empreendimento. Já tivemos a oportunidade de dizer, ao longo do nosso estudo até aqui, que a Agricultura Natural pode ser comparada a um estilo próprio de vida. De fato, o amor, a alegria e o carinho com que cuidamos da terra, preparamos nossas mudas e cultivamos nossas culturas também precisam estar presentes no momento em que esses alimentos irão ser entregues aos seus consumidores finais. O ciclo precisa ser fechado pois quanto mais os produtos da Agricultura Natural venham a ser distribuídos ou comercializados, maior será o numero de pessoas que irão se alimentar melhor e maior ainda será a procura por tais produtos, o que certamente estimulará ainda mais a sua produção e o número de agricultores que sejam defensores e praticantes dessa filosofia de vida e de trabalho.
Portanto, os próprios agricultores são responsáveis por realimentar a cadeia produtiva natural e quanto mais o fizerem, mais pessoas irão ter contato com os frutos desse trabalho. Nossa experiência tem mostrado que quanto mais ensinamos e compartilhamos nossos aprendizados, mais pessoas nos trazem novos e preciosos saberes e tudo entra numa espécie de turbilhão de forças positivas, com resultados benéficos para todos.
Em Maputo, nossa equipa da Africarte vem promovendo, desde junho de 2011, nossa feira semanal de produtos da Agricultura Natural como forma de divulgar os resultados dessa forma de trabalhar a terra. Desde o início dessa atividade estimulamos nossos colaboradores a procurarem realçar o máximo possível as qualidades superiores dos alimentos produzidos de forma natural, isentos de contaminantes químicos e com sabores originais. Ao longo desse tempo já promovemos diversas oficinas e cursos rápidos com dezenas de agricultores e também pessoas interessadas em promover a Agricultura Natural em suas machambas e até mesmo quintais, através das Hortas Caseiras.









(Feira de produtos da Agricultura Natural em Maputo)

Dessa forma, esperamos incentivar ainda mais um número cada vez maior de agricultores a praticarem o cultivo através da Agricultura Natural e terem um modelo de comercialização de seus produtos que leve à viabilização econômica de suas respectivas atividades agrícolas além, é claro, do oferecimento à sociedade de produtos verdadeiramente saudáveis, o objetivo maior de nosso trabalho.

(Produtos da Agricultura Natural oferecidos pela Africarte em Moçambique)

NOTA: Nosso mercado consumidor é refém daquilo que a mídia nos força a consumir. Nossos alimentos agrícolas, por exemplo, são forçadamente padronizados, introduzindo cada vez mais artificialização nos campos agrícolas, e nisso reside um dos maiores obstáculos no combate à fome em todo o mundo. Desde cedo somos educados a comprarmos alimentos com um mesmo tipo de formato e tamanho, mesmo que o sabor nem de longe lembre mais o daqueles produzidos de forma natural. Normalmente as pessoas ficam encantadas com frases do tipo "produto selecionado", "sumo produzido com frutas selecionadas", etc. Porém, em muitos lugares estima-se que cerca de 30% de tudo o que se produz no campo seja descartado por não estar dentro dos padrões de qualidade exigidos pelo mercado consumidor ao não possuir o aspecto ideal, muitas vezes independentemente da sua verdadeira qualidade nutricional. Ou seja, muitas vezes os consumidores ficam muito mais presos ao aspecto externo de um produto ao invés de se preocuparem realmente com eventuais presenças de resíduos de agrotóxicos ou ainda nas pressões que os métodos convencionais de agricultura, necessários para esse tipo de produção padronizada, venham a causar no meio ambiente. Produtos agroecológicos e naturalmente produzidos dificilmente apresentam forma padronizada e definida. Aliás, essa é justamente uma das características que muitos consumidores mais conscientes e conhecedores das formas naturais de produção de alimentos usam para reconhecê-los nos mercados especializados. No nosso trabalho com a Agricultura Natural estaremos sempre valorizando a diversidade de produtos bem como de suas formas e até cores, reconhecendo nisso a ação da própria Natureza.

terça-feira, 17 de junho de 2014

terça-feira, 10 de junho de 2014

AULA 16: Texto de apoio


2. Higienização
(Capítulo 2 do Módulo 3 da apostila do Curso de Agricultura Natural)

Introdução
Ao longo dos anos, percebemos muitas vezes que algumas pessoas, ao se referirem aos produtos agrícolas produzidos pela Agricultura Natural, que via de regra não recomenda nenhum tipo de defensivo químico ou mesmo resíduos de origem animal que não tenham sido previamente tratados, acabam por menosprezar os cuidados necessários com a higiene de tais produtos. De fato, se forem produzidos conforme os fundamentos e premissas básicas, os produtos da Agricultura Natural terão uma grande chance de não conterem contaminantes, sejam eles de origem química ou microbiológica. Mas por que ainda terão a possibilidade de estarem contaminados?
A resposta a essa pergunta pode ser muito complexa. Embora não entrem no manejo ecológico proposto do solo, muitos químicos agrícolas poderão ser encontrados no solo ou mesmo na água que será usada na irrigação na forma de resíduos. Além disso, os resíduos de combustíveis, oriundos de derrames acidentais no solo ou na água, também poderão estar presentes. A contaminação microbiológica, por sua vez, poderá ocorrer ao usarmos água contaminada com resíduos de fezes humanas e animais ou ainda na hora da manipulação do alimento, a começar no momento da colheita.
Existe um sistema que tenta estabelecer pontos críticos de controle que visam minimizar os riscos de contaminação dos alimentos que irão ser consumidos e principalmente oferecidos no mercado. O termo técnico desse sistema é HACCP – Sistema de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle. Evidentemente que, no âmbito desse manual, estamos focados no trabalho do agricultor camponês dentro da realidade rural do interior africano. Isso quer dizer que estaremos tentando seguir as recomendações internacionais de segurança dos alimentos dentro das possibilidades oferecidas pelo nosso ambiente de trabalho, sem perder o foco da qualidade final dos produtos processados pelos camponeses.
Fazendo referencia ao Codex Alimentarius, que é uma coletânea de padrões reconhecidos internacionalmente, códigos de conduta, orientações e outras recomendações relativas a alimentos, produção de alimentos e segurança alimentar, publicado pela FAO/ONU, vamos citar um trecho da sua introdução:
“É direito das pessoas terem a expectativa de que os alimentos que consomem sejam seguros e adequados para consumo. As doenças e os danos provocados por alimentos são, na melhor das hipóteses, desagradáveis, e, na pior da hipóteses, fatais. Há também outras conseqüências. Os surtos de doenças transmitidas por alimentos podem prejudicar o comércio e o turismo, gerando perdas econômicas, desemprego e conflitos. Alimentos deteriorados causam desperdício e aumento de custos, afetando de forma adversa o comércio e a confiança do consumidor.
O comércio internacional de alimentos e as viagens internacionais estão aumentando. O resultado são importantes benefícios sócio-econômicos, mas também a disseminação de doenças ao redor do mundo. Nas últimas décadas, os hábitos alimentares têm passado por mudanças em muitos países, acarretando o desenvolvimento de novas técnicas de produção, preparação e distribuição de alimentos. Portanto, um controle eficaz de higiene tornou-se imprescindível para se evitar conseqüências prejudiciais decorrentes de doenças e danos provocados pelos alimentos à saúde humana e à economia. Todos – agricultores e cultivadores, fabricantes e processadores, manipuladores de alimentos e consumidores – têm a responsabilidade de garantir que o alimento seja seguro e adequado para consumo.
Estes Princípios Gerais estabelecem uma base sólida para garantir a higiene dos alimentos e, quando apropriado, devem ser usados em conjunto com os códigos de práticas de higiene específicos e com as diretrizes sobre critérios microbiológicos. O documento acompanha a cadeia de alimentos desde a produção primária até o consumidor final, destacando os controles de higiene funadamentais em cada etapa. Recomenda, sempre que possível, a adoção de um enfoque baseado no Sistema HACCP, para aumentar segurança alimentar, conforme descrito no Sistema de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (HACCP) e Diretrizes para sua Aplicação.”

Higienização dos produtos agrícolas
Após a colheita e a seleção dos produtos, retirando-se aqueles que eventualmente não estejam em condições de serem comercializados ou mesmo consumidos, a etapa seguinte é a higienização adequada dos produtos. Por higienização entendemos a limpeza dos alimentos, retirando resíduos de terra, folhas secas, restos de composto, etc. Na realidade, na prática da Agricultura Natural não temos a maioria dos problemas que os produtos convencionais, cultivados com agrotóxicos e diretamente com estrume animal, têm. Essencialmente nossos produtos tenderão a ser isentos de todas essas substâncias e microrganismos nocivos, mas isso não quer dizer que não temos de tomar cuidados para não contaminar nossos produtos justamente após serem colhidos. Isso poderá acontecer, por exemplo, se a sua manipulação for feita por pessoas cuja higiene pessoal não for adequada. Não lavar as mãos após usar a casa de banho e em seguida manipular folhas e legumes, por exemplo, pode deitar por terra todo o trabalho da produção até então, pois poderão acontecer contaminações microbiológicas principalmente por bactérias típicas do trato gastrointestinal humano como a Escherichia coli, causadora de graves toxinfecções alimentares. Outra forma de contaminarmos nossos produtos é usando utensílios sujos ou inadequados.
 
Higiene pessoal
Antes de começar o trabalho de higienização dos alimentos colhidos na machamba é muito importante assegurar a própria higiene pessoal. Banhos diários, unhas bem aparadas, cabelo preso preferencialmente com um lenço ou touca descartável, roupas limpas, etc., ajudarão a garantir que os alimentos possam ser manipulados sem riscos apreciáveis de serem contaminados. 
 





A higiene pessoal e a organização do espaço de trabalho são importantes para garantir a qualidade dos produtos processados. Machamba-modelo da Agricultura Natural de Marracuene.

O uso de máscaras e mesmo luvas descartáveis também é altamente recomendável, pois irão ajudar a garantir ainda mais a sanidade e qualidade dos produtos agrícolas. Mas independentemente de se usarem máscaras e luvas, é importantíssimo lavar bem as mãos antes de qualquer atividade de contato direto com os alimentos.

Ambiente de trabalho
Preferencialmente o ambiente em que o trabalho de higienização e manipulação dos alimentos for feito deverá ser protegido contra o vento, sol, chuva, sujidades, etc. O ideal é dispormos de uma sala azulejada, ou seja, com as paredes revestidas por cerâmicas impermeáveis e piso lavável de tijoleiras. Entretanto, sabemos da realidade da maior parte do interior em África e da incapacidade, na maior parte das vezes, de garantir esse tipo de instalação. Sendo assim, o ideal é que o local seja arejado, livre da circulação de animais domésticos, curiosos e que seja tudo muito bem organizado. Na medida do possível, o ambiente escolhido para essas atividades deve ser de uso exclusivo das pessoas que irão desenvolver a atividade e reservado apenas para essa etapa do trabalho com os produtos agrícolas. Por exemplo, não convém misturar nesse mesmo ambiente o depósito de combustíveis, ferramentas de campo ou outros materiais do gênero.

Qualidade da água
A água que será usada para lavar nossos produtos deve ser isenta de quaisquer sujidades e contaminações químicas e microbiológicas. O ideal é que se usem águas provenientes de furos e que sejam devidamente armazenadas em tanques fechados para evitar qualquer tipo de contaminação. Águas provenientes de poços também podem ser usadas mas cuidados adicionais com o próprio poço serão necessárias para se garantir que nenhum material estranho venha a cair nele, o que fatalmente reduzirá a qualidade de suas águas. Nesses casos também, o cuidado com os materiais como baldes, cordas, etc. que forem ser usados para retirar a água são de extrema importância.
No caso de se ter como única opção o uso de águas diretamente de rios, deve-se atentar para possíveis contaminações de suas águas por esgotos sanitários, resíduos industriais, agrotóxicos, etc. Na nossa escala de trabalho não recomendamos o uso dessa fonte de água diretamente para a higienização e manipulação de nossos alimentos colhidos.

NOTA: A opção, que infelizmente nem sempre será barata e disponível, é fazer essa água passar por um processo de tratamento adequado. Portanto, tenha em mente no planejamento global do seu trabalho com a terra que num determinado momento será necessário ter uma fonte de água limpa e potável para um melhor aproveitamento dos resultados do campo. Como investimento recomendado numa determinada propriedade, indicamos a abertura de poços ou mesmo furos e isso, dependendo das condições, poderá ser feito por sistemas de cotas e parcerias com outros agricultores da sua região.

Ainda no caso das água de poços e furos, ou mesmo daquela servida pelos sistemas de distribuição de água das companhias de saneamento, que possuam historial de problemas derivados de contaminações microbiológicas, pode ser interessante fazer o uso da desinfecção caseira. Para isso, prepare um reservatório de plástico, como tanques de água, e limpe-os bem. Em seguida, encha-os com a água que ira ser usada e adicione 1 colher de javel (água sanitária) para cada 200 litros de água. Deixe essa água em repouso por uma noite para que todos os microrganismos nocivos sejam mortos e os resíduos de javel sejam evaporados. Retire essa água do tanque com auxílio de torneiras e nunca introduza baldes ou outros recipientes no seu interior.
Essa é uma forma de tentar minimizar problemas decorrentes da contaminação de microrganismos patogênicos veiculados pela água provenientes, principalmente, de resíduos fecais que possam entrar em contato com as fontes de água. Contudo, se conseguir garantir a correta limpeza e isolamento da fonte de água, esses cuidados de desinfecção poderão ser minimizados e dai a importância de investir algum tempo e dinheiro na garantia da qualidade da água disponível, quando isso for o caso.

Higienização dos produtos agrícolas
Agora que já garantimos a higiene pessoal, a limpeza e organização do espaço de trabalho bem como os utensílios que serão usados, e finalmente garantimos a qualidade da água para essa etapa do trabalho, passaremos para a higienização dos produtos, propriamente dito.
As folhas recém colhidas podem ser imersas em água limpa, para retirar os resíduos de terra e outras sujidades. Uma forma de garantir a eficiência dessa operação é dispor de dois ou três recipientes com água que deverá ir sendo trocada de tempos em tempos. Imergimos as folhas no primeiro tanque e depois vamos transferindo para os seguintes. Desse forma, ao final do último recipiente, já temos produtos bem limpos e melhor apresentados.
Após essa etapa de limpeza das folhas, deve-se fazer uma inspeção minunciosa para garantir que não restam resíduos e principalmente insetos. Vamos lembrar que estamos a praticar a Agricultura Natural, que segue as leis da Natureza. Isso quer dizer que convivemos com o mundo natural e seus habitantes! Muitos desses bichinhos que vêm junto com nossas colheitas estão nos ajudando a controlar outros que poderiam nos trazer enormes prejuízos ao comerem grande parte de nossos produtos ainda no campo. Portanto, não é recomendado que pensemos neles como um incômodo, pois na verdade, a grande maioria deles são nossos colaboradores. Porém, é claro que sua presença nos produtos a serem consumidos ou comercializados não é adequado e por isso devemos garantir que não estarão a andar nos nossos pratos ou nas nossas bancas de venda.
Já com os tubérculos e raízes temos uma dificuldade a mais que é a grande quantidade de terra que normalmente acompanha esses produtos ao serem colhidos. O que normalmente fazemos é deixar um recipiente grande com água e deixar as raízes por uns 20 ou 30 minutos imersas nela para amolecerem a terra que vem com elas. Em seguida, com a ajuda de uma esponja ou pedaço de pano, retiramos a lama que se forma e só depois transferimos os produtos para outro recipiente com água mais limpa. Vamos repetindo essa operação até que toda a nossa colheita esteja devidamente limpa e deixamos as raízes e tubérculos secando à sombra.
Também nessa etapa vamos selecionando os nossos tubérculos, podendo separá-los por tamanho sempre que isso for conveniente em termos de vendas. Recomenda-se que, na medida do possível, esses produtos sejam vendidos inteiros, com suas folhas e mesmo as pontas de suas raízes sem serem retiradas. Muitos tubérculos possuem nutrientes nessas partes e como não fazemos uso de agrotóxicos, o consumo de suas folhas não só é possível como também altamente recomendado. Por exemplo, as folhas das cenouras e beterrabas são excelentes em refogados e sopas e a apresentação desses produtos com suas folhas originais tende a valorizá-los ainda mais.
No caso da mandioca, o ideal é que sejam consumidas o quanto antes após sua colheita. Se passar muito tempo, pode acontecer dela começar a escurecer e isso fará com que perca alguns de seus nutrientes e qualidade de cozimento. Portanto, é bom programar bem a colheita em função da previsão de venda ou consumo para que sempre possamos oferecer produtos de melhor qualidade.
As frutas também tem seus próprios meios de serem limpas e preservadas. O ideal é que ao serem colhidas evitem-se romper as cascas. Por exemplo, no caso das tangerinas, o ideal é que o fruto ainda mantenha o seu talo evitando expor o interior da fruta. Dessa forma, ao serem lavadas não corremos o risco de deixar a água entrar em contato com a polpa o que fatalmente irá estragá-la. Papaias, mangas, massalas, etc. seguem o mesmo raciocínio. No geral, os próprios agricultores podem ir fazendo suas observações e descobrindo sempre melhores condições de preservar as diversas frutas, principalmente as nativas de cada região, compartilhando seus conhecimentos e aprendizados com os agricultores de sua comunidade.

Roteiro da Aula 15

Programa de aula: Técnicas de colheita e preservação de culturas agrícolas

Introdução

2. Colhendo os produtos da machamba
2.1. Cada cultura tem seu próprio método de colheita
2.2. Toda colheita deve ser precedida de planejamento
2.3. Importância da apresentação dos produtos para venda

3. Colheita de folhas
3.1. Técnicas de colheita
3.2. Preservação das folhas

4. Colheita de tubérculos
4.1. Cuidados na retirada do solo
4.2. Equipamentos para colheita
4.3. Colheita manual
4.4. Particularidades

5. Colheita de frutas e legumes
5.1. Programação em função da maturação dos produtos
5.2. Cuidados no transporte

6. Preservação dos produtos da machamba
6.1. Temperatura ideal
6.2. Condições de estocagem
6.3. Agroprocessamento como alternativa para a preservação

sexta-feira, 6 de junho de 2014

ESQUEMA DE MONTAGEM DA PLANTADEIRA DE SEMENTES MIÚDAS

Para montar sua plantadeira de sementes miúdas e poder desenvolver ainda mais sua horta ou machamba, faça o download do esquema de montagem clicando aqui.





quarta-feira, 4 de junho de 2014

AULA 15 - Texto de apoio




1. Técnicas de colheita e preservação de culturas agrícolas
(Capítulo 1 do Módulo 3 da Apostila do Curso de Agricultura Natural)
 
Não basta apenas produzir os alimentos de forma natural e, consequentemente, de maneira mais saudável. Igualmente importante é atentar para as diversas técnicas e etapas de processamento para os mais variados produtos colhidos, seja para o consumo próprio ou para a futura comercialização por parte dos agricultores. Se os produtos agrícolas forem colhidos e armazenados sem a devida técnica e cuidados, principalmente de higienização e controle de qualidade, corre-se o risco de sofrerem deterioração acelerada de suas propriedades e características iniciais. Os prejuízos, nestes casos, vão desde a perda de importantes frações de nutrientes a até mesmo do valor comercial que esses mesmos produtos poderiam alcançar caso a preservação fosse feita de maneira adequada.
Por isso é muito importante o agricultor, na condição de um empreendedor agrícola que essencialmente é, ficar atento e empregar os esforços necessários para preservar adequadamente o resultado do seu trabalho. Os ganhos, caso isso seja feito, serão ainda maiores, tanto do ponto de vista nutricional como do ponto de vista comercial. Produtos bem higienizados e embalados adequadamente para aqueles casos onde o seu consumo não será imediato, tendem a agregar valor na cadeia de produção. O mesmo irá acontecer, como veremos mais adiante, no processamento de muitos desses produtos, que poderá conferir às famílias camponesas uma importante fonte de renda adicional. Porém, tudo irá começar pelo primeiro passo: a colheita.

Colhendo os produtos da machamba
Uma das primeiras coisas que precisamos ter em mente é que cada tipo de planta e, portanto, cultura agrícola, tem a sua forma adequada de ser retirada do campo. Por exemplo, as folhas como salsa, rúcula, coentro, cebolinha, nhangana1, mboa2, dledlele3 e outras precisam ser colhidas no mesmo dia em que forem ser comercializadas. Caso isso não seja possível, a colheita poderá acontecer no dia anterior mas, para isso, as folhas deverão ficar com as pontas de seus caules imersos em água limpa, como se fosse num vaso de flores. Outras culturas, como a batata-doce, batata-reno, cenouras e outros podem ficar até alguns dias antes de serem consumidos ou comercializados. As técnicas, portanto, vão sendo modificadas de acordo com a natureza de cada cultura e o tempo disponível para o seu armazenamento.

 
Colheita de produtos da machamba. Machamba-modelo da Agricultura Natural de Marracuene.

Toda colheita deve ser precedida do devido planejamento da atividade. Isso evitará os desperdícios e perdas de produtos, que muitas vezes consumiram grandes quantidades de preciosos recursos para serem produzidos como a água, por exemplo. Além disso, devemos considerar também o dispêndio de energia na própria atividade de colheita, muitas vezes sendo feita em horários diferentes daqueles normalmente usados para o restante das atividades do campo. Portanto, saber o que colher e em qual quantidade poderá ser a chave para o sucesso do empreendimento. E fica claro que o planejamento do que plantar, numa etapa bem anterior à colheita, foi um dos passos fundamentais para toda a rentabilização da atividade agrícola. Para continuarmos com nossa discussão, vamos partir do pressuposto, nesse módulo, que todo o plantio das culturas foi devidamente planificado e, portanto, as estimativas de produção foram feitas com todo o critério necessário.
Além da colheita em si, também é muito importante estarmos atentos para as diversas formas de transportar nossas colheitas de modo a minimizar eventuais perdas seja por derrames ou mesmo por danificarmos os produtos. Assim, o acondicionamento dos produtos colhidos é tão importante quanto a técnica usada para colhê-los.
Por fim, as técnicas de exposição dos produtos para uma maior valorização junto ao publico consumidor, fechará o ciclo produtivo. Para aqueles agricultores que estejam interessados no empreendedorismo através da Agricultura Natural, a venda final de seus produtos é quase uma espécie de certificação de todo o seu trabalho até ali. Por isso, é muito importante também estar atento na hora de valorizar todo o seu esforço e investimento. Aliado ao fato dos produtos da Agricultura Natural tenderem a ser isentos de contaminantes, ricos nutricionalmente e saborosos, é importante também que sua apresentação final seja condizente com a sua própria Natureza. Ele será, nesta etapa, uma espécie de cartão de visita da Agricultura Natural, ajudando a expandir ainda mais a sua filosofia de trabalho. 
 
Exposição e venda dos produtos da Agricultura Natural em Moçambique.

Colheita de folhas
Como mencionamos anteriormente, a colheita das folhas de nossas machambas deve ser precedida de alguns cuidados básicos para que, na hora de sua comercialização, elas possam atingir valores melhores aos agricultores e se convertam em excelentes opções de compra aos consumidores, tanto em termos de preços quanto em termos de qualidade. O ideal é que a colheita de folhas seja feita no mesmo dia em que forem comercializadas, preferencialmente nas primeiras horas da manhã. Mas nem sempre isso é possível, principalmente pela falta de logística de transporte que verificamos na maioria dos campos de agricultores familiares pelo interior do país. 
 
Colheita e acondicionamento inadequado de couves. Notar o grande número de folhas pequenas que dificilmente são aproveitadas pelos consumidores.

Existem alternativas para se procurar manter o frescor e a vitalidade das folhas colhidas das machambas. Uma dessas alternativas, e que consideramos a mais eficiente em termos de preservação natural, é aquela na qual as folhas recém colhidas são imediatamente imersas em água limpa, para serem resfriadas, e em seguida seus caules mantidos na água como se fossem flores num vaso. A idéia é retardar ao máximo o inicio da degradação do alimento, por ação natural de microrganismos, e a perda de água dos tecidos vegetais, o que ocasiona o murchamento das folhas. 
 
Lavagem das folhas recém colhidas.
 
Seleção das folhas lavadas.

Uma das nossas alternativas para envase das folhas lavadas e selecionadas.

Introduzimos aqui a expressão degradação do alimento. É preciso ter em conta que, a partir do momento em que qualquer alimento é retirado do campo, inicia-se imediatamente o processo de decomposição de seus tecidos, tal como acontece com qualquer animal morto. Evidentemente que o tempo para que essa decomposição ocorra será diferente para cada tipo de planta, como já dissemos, e muitas delas poderão ficar dias antes que se inicie o processo de putrefação. Mas isso não quer dizer que a qualidade do alimento, em sua totalidade, seja também preservada por todo esse tempo em que ele ficar, por exemplo, exposto para venda. Com as folhas isso é evidente, pois bastam algumas horas após a colheita para percebermos a sua deterioração, caso não sejam tomados os cuidados necessários para evitá-la.
O tempo em que uma folha colhida permanecerá vistosa e bem apresentada, mesmo com todos os cuidados acima mencionados, dependerá também do seu vigor hídrico. Isso tem a ver com a quantidade de água que a planta conseguiu reter ao longo do seu desenvolvimento e essa quantidade está diretamente relacionada à boa nutrição, equilibrada, que ela conseguiu a partir do solo. Em outras palavras, se o sistema de produção agrícola for bem conduzido e principalmente, ecologicamente equilibrado, a tendência é que as plantas colhidas durem muito mais tempo e isso pode ser uma excelente estratégia comercial por parte dos agricultores camponeses.
Um outro aspecto também muito importante na questão das colheitas de folhas diz respeito ao fato de que muitas plantas não precisam ser colhidas em sua totalidade. É muito comum encontrarmos pés inteiros de couve que foram colhidos até quase a raiz. Essas plantas, colhidas dessa maneira, não conseguem mais sobreviver e acabam morrendo, sendo necessário, pois, plantar uma nova muda daquele espécie ou até mesmo outro tipo de planta. Assim como as couves, as couve-chinesas, rúcula, salsa, etc. também costumam ser colhidas convencionalmente de forma que não resta nada no canteiro original, e dessa forma eles acabam precisando ser renovados continuamente.

Canteiros com couve-chinesa e rúcula, cujas folhas são colhidas semanalmente. Machamba-modelo da Agricultura Natural de Marracuene.

Por outro lado, em termos de estratégia de uso da água e da economia de tempo e energia, uma melhor opção é colher somente aquelas folhas que irão ser consumidas ou comercializadas. Isto porque, assim fazendo, não haverá a necessidade de replantar, por exemplo, aquele pé de couve que foi colhido inteiro. Retirando semanalmente somente aquelas folhas que forem adequadas para a venda ou consumo, ainda mantemos nossos pés de couve nos canteiros e economizamos muita água de irrigação e energia, inclusive de trabalho braçal, que de outra forma teriam de ser gastos com mudas pequenas daquela planta que só estarão prontas para a colheita depois de dois ou três meses. Assim, plantas como as couves (inclusive a couve-chinesa), acelgas, espinafres, salsas, cebolinhas e até mesmo as folhas da beterraba, cenoura, nabos, etc., podem ir sendo colhidos regularmente sem que tenhamos a necessidade de retirar a planta inteira. Com outras plantas isso já não é possível, como é o caso das alfaces. Estas, depois de um determinado tempo, começam a produzir naturalmente uma série de toxinas naturais que tornam suas folhas amargas e, portanto, impróprias para o consumo humano.

Colheita de tubérculos
Ao colhermos os tubérculos, como as batatas por exemplo, um dos principais cuidados a serem tomados diz respeito à forma correta de retirá-los do solo. O uso da enxada precisa ser feito com muito cuidado, pois do contrário corre-se o risco de danificar os produtos o que provocará imediatamente sua desvalorização comercial e também a diminuição do tempo de preservação natural desses produtos. No caso das batatas (batata-reno, batata-doce, etc.) o ideal é usar um pequeno implemento chamado arranca-batatas que pode ser puxado por burros, bois ou até mesmo uma pequena motocultivadora. O uso desse tipo de ferramenta além de facilitar enormemente o trabalho de colheita trás ainda a vantagem de aumentar a produtividade por hectare, já que muito poucas raízes ficam enterradas no solo sem serem colhidas. 
 
Arrancador de batatas acoplado a uma motocultivadora.

Na colheita de outras raízes como cenouras e beterrabas, embora existam equipamentos de grande porte para realizar esse tipo de trabalho, ao agricultor camponês resta a alternativa de colhê-las manualmente. No entanto, pela relativa facilidade com que conseguem ser retiradas do solo, comparativamente ao que acontece com as batatas, sua colheita acaba sendo feita sem grandes transtornos. O mesmo raciocínio pode ser feito para os nabos e rabanetes, cuja colheita também acaba sendo feita manualmente, principalmente no caso de pequenos agricultores.

Rabanetes recém-colhidos. Machamba-modelo da Agricultura Natural de Marracuene.

A mandioca tem um aspecto interessante. Dependendo da forma com que as manivas (pedaços do caule da planta) foram plantadas, a colheita pode ser facilitada ou dificultada. É muito comum encontrarmos campos de plantio de mandioca onde as manivas são enfiadas no solo em ângulo de mais ou menos 45o ou perpendicularmente a este. Na verdade, a maioria dos agricultores acabam optando por essa forma de plantio talvez pelo fato de conseguirem um maior percentual de pega das mudas. De fato, manivas plantadas enfiadas parcialmente no solo tendem a brotar muito mais rápido, o que não significa necessariamente que irão produzir raízes também mais rápido ou em grandes quantidades. A outra forma de plantar as manivas é enterrando-as totalmente no solo após terem sido colocadas na horizontal, ou seja, deitando as manivas no solo e depois cobrindo-as totalmente com terra. O tempo para que os rebentos da nova planta apareçam é de fato um pouco maior, mas a produtividade por pé de mandioca também será comparativamente maior. Além disso, as raízes de mandioca, quando as manivas são plantadas na horizontal, tendem a crescer bem rentes à superfície do solo, o que irá facilitar muito o futuro trabalho de colheita e, consequentemente, de produtividade por hectare.

Rama de mandioca ainda em desenvolvimento plantada segundo a técnica de enterrar completamente as manivas; notem a grande produção de raízes a partir das duas extremidades da maniva original. Pólo de Agricultura Natural da Moamba.

As batatas-doce também têm sua particularidade. Os tubérculos, depois de atingirem o grau adequado de maturação podem ser mantidos no próprio campo. Estudos mostram que as batatas-doce podem permanecer enterradas, sem serem colhidas, por até 6 meses. Por outro lado, isso não quer dizer que elas não estarão sujeitas ao ataque de insetos, principalmente formigas, e também de roedores como os ratos do campo ou mesmo os ratos-toupeira. Portanto, embora se conheça essa particularidade das batatas-doce, a decisão de mantê-las ou não nos campos vai depender bastante do equilíbrio ecológico atingido na propriedade. 
 
 
As batatas-doce podem permanecer meses debaixo da terra sem serem colhidas, mas isso requer planejamento. Pólo de Agricultura Natural da Moamba.

Colheita de frutas e legumes
Muitas vezes o tempo entre a colheita e a comercialização final dos produtos, como já dissemos, pode levar alguns dias. Por isso, alguns produtos da machamba devem ser colhidos ainda verdes, como é o caso das bananas. Isso além de possibilitar um tempo maior de exposição na prateleira, minimiza consideravelmente as perdas durante o transporte. O mesmo raciocínio é usado para os tomates, que normalmente são colhidos quando o processo de amadurecimento ainda está bem no inicio. Essas observações, contudo, dependerão da logística disponível pelo agricultor para conseguir distribuir e vender sua mercadoria. Poderá ser o caso, por exemplo, dele conseguir expor seus produtos frescos e já no ponto ótimo de maturação, caso tenha condições para isso.
Em outras situações, como no caso das berinjelas, os frutos deverão ser colhidos no ponto ótimo de maturação, já que esse legume tem ótima resistência mecânica e se mantém firme por vários dias após ter sido colhido.

Preservando os produtos da machamba
O ideal é que todo produto que for colhido da machamba e que não venha a ser imediatamente consumido ou comercializado, seja mantido sob refrigeração. Evidentemente que isso é impraticável por parte da maioria dos agricultores camponeses, já que o processo exigiria a aquisição de grandes frigoríficos, com considerável custo de energia, manutenção, etc. Uma alternativa é a que já descrevemos no item anterior, a de colher muitos desses produtos antes que atinjam sua maturação ideal e, com isso, possibilitar um tempo maior de conservação antes da venda final. Porém, existem casos em que essa colheita antecipada não é possível, como no caso dos morangos, que sob temperaturas ambientes mais altas (acima dos 27 oC, por exemplo) aceleram muito a sua deterioração, muitas vezes ficando impróprio para o consumo in natura em pouco mais de 10 ou 12 horas, sob estas condições.
Colheita de morangos na Machamba-modelo da Agricultura Natural de Marracuene. O morango é um fruto que precisa ser refrigerado logo que é colhido.

Outra alternativa, e que será mais profundamente discutida nos itens seguintes, é a produção de conservas, doces e geléias, que além de agregar bastante valor aos produtos, elevam consideravelmente o tempo de preservação dos alimentos. Geléias, por exemplo, se forem feitas de forma adequada, podem ser preservadas por 6 meses ou mais, sem necessitarem de cuidados especiais como a refrigeração. Evidentemente que o sucesso desse tipo de trabalho estará relacionado ao bom planejamento da produção agrícola, como vimos no Módulo 2, e também da variedade de produtos que o agricultor tiver à sua disposição na machamba. Por exemplo, se a opção for pela produção de doces e geléias, quanto maior a variedade desses doces maior será a aceitação dos produtos e mais facilmente o agricultor conseguirá criar e manter uma clientela fiel ao seu trabalho.


1 Folhas de feijão-nhemba, também conhecido por feijão-de-corda.
2 Folhas de abóbora.
3 Folhas de batata-doce.