segunda-feira, 19 de maio de 2014

POR QUE PLANTAR MILHO COMO SE FOSSE MAPIRA?

Vamos dar uma olhada nas duas imagens a seguir:




A primeira imagem é da mapira (Sorghum sp.) e a segunda do milho (Zea mays). Embora sejam plantas de espécies diferentes, sua semelhança morfológica pode estar contribuindo, há muito tempo, para uma espécie de subcultivo do milho em muitas regiões do interior africano. Vamos analisar com mais calma as imagens anteriores.

A primeira imagem, da mapira, parece mostrar cinco plantas carregadas de sementes, não? Só que as coisas não são bem assim. Na verdade, trata-se de uma única planta, originada de uma única semente, que rebroutou após a primeira colheita e o corte da parte aérea da planta original. Pode até não parecer, mas os cinco pendões que vemos carregados compartilham o mesmo sistema radicular. E não é só isso. Pela natureza dessa planta, o sistema radicular permanece vivo mesmo após alguns cortes da parte aérea da planta e até mesmo quando ocorre uma estiagem prolongada. A mapira pode ficar meses sem receber água e quando volta a recebê-la, o seu desenvolvimento é retomado.

Já o milho, uma planta de origem das terras altas da América do Sul, possui uma estratégia de sobrevivência bem diferente da mapira. O pé de milho mostrado na segunda imagem também foi obtido após o plantio de uma única semente, só que nesse caso, essa semente produziu apenas um único “pé de milho”. Nessas condições, a produção de espigas pode variar de duas a até quatro espigas num único pé. Após o amadurecimento da espiga, o pé de milho seca e morre.

O milho foi trazido para a África pelos antigos colonizadores europeus que o descobriram em terras americanas. Rapidamente o seu cultivo foi expandido por praticamente todo o continente e hoje em dia é um dos cereais mais cultivados em todo o planeta. No entanto, nas machambas camponesas é muito comum encontrarmos milho plantado como se fosse mapira. Como é isso? Os camponeses adotaram o hábito de colocar numa só cova até seis ou sete sementes de milho e uma das justificativas para isso “é que eles precisam produzir o máximo de espigas por cova semeada”. Contudo, o que se vê na maioria esmagadora das machambas são plantas subdesenvolvidas que produzem espigas pequenas e raramente bem carregadas de sementes. No entanto, esse hábito é tão forte na cultura atual que até mesmo no caso de nossos colaboradores é difícil convencê-los do erro dessa prática.

Ao plantarmos mais do que duas sementes de milho por cova, as plantas que nascerem irão competir pelo espaço disponível e o resultado será uma espécie de atrofiamento do sistema radicular o que acabará causando um subdesenvolvimento da própria planta e consequentemente, da colheita. Durante algum tempo nos perguntávamos o por que dessa prática e numa espécie de insight percebemos, ao contemplar um pé de mapira carregado após a rebrota, que talvez esse hábito tenha se originado ainda no tempo do início da colonização, quando nossos ancestrais receberam as primeiras sementes de milho e perceberam que as plantas eram muito parecidas com as da mapira, de origem africana e, portanto, cultivada no continente há milhares de anos. O fato é que plantar milho como se fosse mapira não irá produzir, nem de longe, as colheitas potenciais que essa cultura pode nos dar.

Por outro lado, o cultivo da mapira como estratégia na produção de alimento em quantidade e qualidade em regiões vulneráveis em termos climáticos, pode ser até mais interessante que o milho. Como a planta está muito melhor adaptada às condições de escassez de água e ao calor africano, seu cultivo pode ser uma espécie de apólice de seguro para eventuais crises alimentares em muitas partes do continente.

Nas nossas machambas da Agricultura Natural, tanto o milho quanto a mapira são presenças mais que obrigatórias!

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