domingo, 26 de abril de 2015

CURSO DE AGRICULTURA NATURAL E GESTÃO AMBIENTAL - 2015: AULA 7

Agricultura Urbana
(Capítulo 1 do Módulo 5 do Livro do Curso de Agricultura Natural)

A agricultura urbana, como sugere seu próprio nome, é aquela praticada em pequenos espaços dentro das cidades e em seu entorno, nesse caso chamada agricultura periurbana.

Precisamos lembrar que a agricultura sempre esteve ligada diretamente às cidades. Já vimos no Módulo 1 desse nosso Curso de Agricultura Natural que a possibilidade da fixação do homem, ou seja, a passagem do modo nômade de vida para o modo sedentário, e a formação de pequenos grupos familiares, que formaram futuramente as urbes e cidades, é diretamente atribuído ao advento da descoberta e prática da Agricultura.

Assim, falar em agricultura urbana é retornar a origem da agricultura que com a modernização, crescimento e verticalização das cidades foi sendo afastada para os campos agrícolas e deixando de fazer  parte do dia-a dia das populações urbanas.
Claro que, como em todas as regras, existem exceções e com este tema não é diferente. A agricultura continua a ser praticada em muitas cidades ao redor do mundo. Em algumas cidades, esse processo deixou de existir em algum momento mas em muitas delas está a ser recuperado, em outras urbes essa recuperação da agricultura urbana é recente mas em todo o mundo é um processo atual que vem a cada dia aumentando em número e formas diferentes de ser implantado.

Pelas próprias características das propriedades e seus tamanhos, a agricultura urbana baseia-se na agricultura familiar ou nas pequenas propriedades agrícolas.
Em muitos locais esse tipo de agricultura é feito quase como um hobby ou, como já ouvimos algumas vezes, é praticada como se fosse uma espécie de agricultura psicológica. Mas os objetivos da agricultura urbana tem mudado e passaram na última década a ser a produção de alimentos em quantidades suficientes para alimentação humana e uma forma de obtermos alimentos mais frescos e de melhor qualidade perto de nossas casas.
Por ter um caráter familiar, de subsistência, sem muitas vezes uma preocupação com a comercialização dos produtos, a agricultura urbana geralmente não faz uso de agrotóxicos, ou quando a faz estes são usados em pequenas quantidades. Desta forma, os produtos produzidos neste sistema podem ser considerados mais saudáveis.





Além disso, são produtos produzidos próximo ao consumidor, portanto são geralmente mais frescos, já que não precisaram ser descolados a longas distâncias. Como não precisam ficar durante um longo período em deslocamento, é reduzido também o uso de produtos conservantes nos alimentos, garantindo produtos de melhor qualidade. Além do mais, reduzimos também a quantidade de combustíveis utilizados para o deslocamento da produção, contribuindo também para a redução da pegada de carbono desse tipo de produção agrícola.

Além das hortas ou espaços agrícolas familiares ou comerciais, encontraremos nas cidades e seus entornos outros tipo de espaços que vêem crescendo nos últimos anos, as chamadas hortas comunitárias ou institucionais. Esses espaços geralmente são geridos de forma comunitária e atendem comunidades, geralmente carentes, escolas e outras instituições reduzindo assim os custos destas com a aquisição de alimentos, e garantindo melhor nutrição, principalmente aos grupos mais vulneráveis, como crianças, idosos, gestantes e pessoas carentes. A coletividade é responsável pela produção de alimentos e se beneficia diretamente com uma alimentação mas saudável e mais diversificada.



Precisamos ressaltar que muitas das vezes o desenvolvimento das cidades é feito sem nenhum planejamento e zoneamento das áreas, assim muitas das áreas consideradas produtivas para a agricultura acabam por transformarem-se em zonas habitacionais. Desse modo, a prática agrícola nessas áreas é mais do que justificável.

Consideremos também que o exodo rural tem se acentuado cada vez mais e um número cada vez maior de pessoas habitam nas  zonas urbanas. Considerando essa maior quantidade e uma maior importação de alimentos pelas cidades podemos verificar que todo esse processo causa grandes danos ambientais e sociais que podem ser minimizados pela implantação das hortas urbanas.

Essa minimização pode ocorrer devido ao melhor aproveitamento dos espaços urbanos, como praças, terrenos vazios, canteiros de vias públicas, garantindo uma proteção ambiental de seu solo, bem como a melhoria da segurança do local, evitando a ocupação destes terrenos por atividades indesejadas.

A redução da pressão ambiental pode-se refletir não somente na cidade, mas também, no campo com a redução dos espaços utilizados para a produção de alimentos para a cidade.
Portanto, dessa forma vemos cada vez mais iniciativas para a ocupação de espaços urbanos para a produção de alimentos saudáveis, sejam apoiados por instituições governamentais, não governamentais, religiosas, comunitárias, sociais, desportivas, educacionais, etc.


Movimento da Agricultura Urbana no Mundo
(Capítulo 2 do Módulo 5 do Livro do Curso de Agricultura Natural)

O movimento da Agricultura Urbana não é novo no mundo.  Em muitas cidades ao redor do mundo ela é praticada e vemos em alguns países um incentivo forte para sua prática, enquanto em sentido contrário vemos alguns países a tentarem dificultar esta prática.
Estima-se que 15% de todos os alimentos consumidos nas áreas urbanas sejam  cultivados por agricultores urbanos e que essa porcentagem duplique em vinte anos. Cerca de 800 milhões de pessoas estão envolvidas na produção agrícola urbana no mundo.
Em países, como Cuba e Rússia, por exemplo, a agricultura urbana é responsável por grande parte da alimentação da população, e são retiradas toneladas de alimentos das cidades anualmente.

Aproximadamente 72% de todas as famílias urbanas na Federação Russa cultivam alimentos. Berlim, por sua vez, tem mais de 80 mil agricultores urbanos. (Fonte: UNCHS, 2001a e 2001b)

Em Cuba a pós a queda do comunismo na Rússia e a intensificação do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, o país viu-se numa grande crise alimentar , pois a maior parte do que produzia na época era direcionado a exportação enquanto sua alimentação era importada dos países comunistas/socialistas.

Desta forma uma grande iniciativa governamental iniciou um grande projeto para a produção de alimentos nas áreas urbanas de todo o país sendo esta atualmente é responsável por cerca de 80% de tudo o que é consumido no país.
Em África, apesar de nem sempre haverem estudos sobre o assunto ou incentivo governamental, é claro que existem as excessões, vemos a agricultura urbana sendo praticada em muitas cidades e vilas.

Isso deve-se em parte pelas condições nem sempre adequadas que as famílias africanas, principalmente aquelas que vivem nos perímetros das cidades e nas vilas interioranas, tem em adquirir seus alimentos. A agricultura urbana em muitos desses casos é a única fonte de alimentos que boa parte dessas famílias encontra.

Em contrapartida encontramos também em muitas dessas áreas, espaços enormes, com água disponível e nada plantado, quintais limpos, vazios e bem varridos, enquanto os moradores passam fome, ou mesmo desequilíbrios nutricionais advindos de uma dieta deficiente.

Alguns desses casos são explicados pelo distanciamento da terra, geralmente das gerações mais novas, que foram afastadas de suas localidades devido aos grandes períodos de guerra, e com isso não tiveram a oportunidade de aprender a cultivar a terra. Mas em outros casos isso se explica por questões sociais, já que a agricultura em muitos desses países é considerada profissão menor, profissão de quem não teve outra oportunidade na vida, e em muitos casos as pessoas que conseguiram chegar a viver nas cidades, e ter uma profissão diferente, não admitem que elas ou seus filhos retornem a enxada.

Mas geralmente em África a produção urbana, ou periurbana de alimentos é muito presente. Em alguns países esse cultivo é mais presente coo por exemplo no Quênia e na Tanzânia 66% das famílias urbanas cultivam alimentos utilizando todos os espaços disponíveis nas cidades.

Observamos essas características também em Moçambique, quando durante o período chuvoso, as áreas desocupadas e até as bernas das estradas, se transformam em campos de cultivo, onde principalmente as senhoras cuidam do plantio de milho, amendoim, feijão-nhemba e abóbora, culturas que necessitam de poucos cuidados para produzirem.



Técnicas de Cultivo em Pequenos Espaços
(Capítulo 3 do Módulo 5 do Livro do Curso de Agricultura Natural)

Em pequenos espaços precisamos trabalhar para aproveita-los ao máximo. Para as pessoas que tem pequenos quintais é importante escolher variedades agrícolas que se adaptem bem a essa questão bem como organiza-lo para que plantas companheiras possas ficar próximas e as antagônicas possam ficar separadas, podemos também plantar plantas que sejam suporte para outras, assim como podemos plantar plantas trepadeiras, ou que precisem de suporte perto de árvores frutíferas ou de sombra. Como exemplo podemos plantar tomateiros próximos ao caule de árvores frutíferas, assim eles usarão o tronco das árvores como suporte.



Neste caso podemos também utilizar os muros ou cercas como suporte para vasos ou outras estruturas de plantio como caixotes e sacos. O uso de prateleiras, escadotes e outras estruturas que aumentem nossa área de cultivo também é importante.

É importante também levarmos em conta a possibilidade de plantio de variedades agrícolas perenes, ou seja, aquelas que não morrem ao final do ciclo de cultivo, ou que produzem durante todo o ano, assim, mantemos o quintal sempre plantado dando maior motivação para o cuidado com as plantas.

Neste caso precisamos levar em conta o adensamento da produção, plantando um número maior de plantas por metro quadrado. O que nem sempre é possível de ser feito em espaços maiores devido ao cuidado que exige, e que neste caso pode e deve ser feito. Como o espaço é menor os cuidados com as plantas podem ser maiores. A utilização de composto orgânico pode ser mais frequente, os cuidados com a rega também. As sachas ou capinas demorarão menos tempo para serem realizadas e os caminhos podem ser reduzidos, tendo-se o cuidado ao caminhar entre as culturas para o plantio em uma maior área e consequentemente uma maior produtividade do seu pequeno espaço.

Para aqueles que não possuem quintais e utilizarão varandas, lages, ou outros espaços, podemos também aumentar a produtividade no momento da escolha dos recipientes que utilizaremos para o plantio, bem como na escolha dos alimentos que plantaremos e como o os organizaremos dentro da nossa “pequena propriedade”.






Por exemplo, podemos em vasos maiores plantarmos algumas trepadeiras, ou árvores de fruta de pequeno porte, como amoreiras, goiabeiras, limoeiros, e no entorno do vaso utilizar para plantarmos temperos e hortícolas.

Assim também o plantio de espécies trepadeiras, como abóboras, pepinos, carás, ora-pro-nobis, pode aumentar nossa produtividade por metro quadrado, pois estaremos aumentando a nossa área produtiva.

Na verdade, dentro destes espaços precisamos entender que na agricultura urbana trabalhamos com 3 dimensões e não somente com duas como faz a agricultura convencional. Desta forma, deixamos de trabalhar com área cultivada e passamos a trabalhar com volume cultivado. Assim aproveitando todos os espaços que possuímos teremos cada vez mais alimentos com melhor qualidade.


2 comentários:

  1. Dear Alexandre Bertoldo,
    I am writing on behalf of Fagbokforlaget, Norwegian publishing house. We are going to publish a textbook for Norwegian students learning Portuguese language, and in this textbook we would like to use a picture from the article above. We would be very grateful if we can discuss the matter via e-mail: agnieszka.chylinska@fagbokforlaget.no
    Thank you in advance for reply
    Best Regards
    Agnieszka Chylinska

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  2. Muito obrigado pelo seu interesse. Estamos à disposição para discutir esse e outros assuntos relacionados.

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